Mostra Foco – Kamal Aljafari

Nesta edição, a mostra Foco destaca o trabalho do cineasta palestino Kamal Aljafari, cujo último longa-metragem, Um Verão Incomum (Un Unusual Summer, 2020, 80′) faz sua estreia brasileira no 10º Olhar de Cinema depois de circular pelos mais importantes festivais do mundo.

Até que ponto a materialidade real e figural de uma imagem pode se transformar em uma abstração ou, mais longe ainda, em um espectro? A pergunta carrega simultaneamente questões estéticas e éticas que, no cinema de Kamal Aljafari, convergem para um território tão real quanto abstrato e fantasmagórico: a Palestina. Se o cinema de Aljafari parte da observação de um cotidiano familiar que não apenas convive, mas vive dentro da ruína, logo ele transforma essas imagens em rastros, ecos, borrões, desfoques e, nos casos mais radicais de seus filmes mais recentes, em pixels incapturáveis pelas noções do real. A arte de transformar a pungente concretude das paredes quebradas e terraços destruídos de um território invadido em algo imaterial é a arte de reconfigurar a Palestina nos termos de uma nação que, dentro das imagens moventes, consegue escapar às forças que aprisionam e destroem esse espaço. Trata-se de um gesto de luta. Porque a Palestina, no cinema de Aljafari, é uma sombra que consegue correr mais rápido que o corpo de onde ela emana.

Em meio aos fragmentos de memórias e imagens de um povo confrontado com o signo do apagamento, o cinema de Kamal Aljafari apresenta capítulos de uma história inacabada que é, a um só tempo, pessoal e comunitária. Nascido na cidade de Ramla, em 1972, e há anos sediado na Alemanha, o realizador e artista palestino é detentor de uma filmografia poética marcada pela inquietude, colocando em cena diferentes modos de resistência frente às tentativas sistemáticas de destruição dos sujeitos, lugares e campo simbólico que atestam uma existência Palestina. Em quase duas décadas de carreira, o diretor empreende uma investigação minuciosa sobre as formas e políticas das imagens em seus jogos de poder, sobre aquilo que é visto e o que foi tornado invisível, entre ruínas materiais e memoriais que são interpeladas a partir da mesa de montagem.

Seu conjunto de obras, composto pelos quatro longas-metragens que integram esta Foco e três curtas, tem uma filiação principal ao universo do documentário, ainda que mobilize uma gama de procedimentos e formatos diversos no diálogo com as artes visuais, o ensaio e o experimental. Uma das marcas desse processo é justamente a manipulação das imagens de modo a extrapolar seu caráter figurativo – algo evidente no uso do material de vigilância doméstica de um pedaço de rua que conforma o seu último longa, Um Verão Incomum (Un Unusual Summer, 2020, 80′) , cuja estreia brasileira acontece no Olhar de Cinema. Desde as entrevistas do seu primeiro curta Visite o Iraque (Visit Iraq, 2003, 23′), filmado em Genebra, até a aposta ficcional de Porto da Memória (Minaa Al Zakira, 2009, 62’) na lida com o histórico de gentrificação da cidade de Jaffa, passando pela remontagem de arquivos fílmicos em Recordação (Istiaada, 2015, 70’) de modo a ocupar cinematograficamente esses territórios interditos, cada obra atualiza e reconfigura essa trajetória que é também a de sua família, fabulando outros tempos e laços afetivos por meio de sons e imagens. Como em O Telhado (Al Sateh, 2006, 63′), o primeiro longa do realizador, cujo título remete ao teto nunca concluído da casa de seus pais, os filmes que integram esta mostra evidenciam o processo incessante de construção de comunidade, da partilha que se enraíza nos movimentos próprios ao cotidiano – de uma casa, uma rua ou um bairro – e une pessoas e lembranças, presentes e ausentes.

A Foco contará também com uma Conversa Aberta com Kamal Aljafari, mediada por Carla Italiano e Carol Almeida. Já os três curtas que completam a mostra – Visite o Iraque (Visit Iraq, 2003, 23′) , Varandas (Balconies, 2007, 8′) e It’s a long way from Amphioxus (2019, 15′) – estarão disponíveis no canal do Youtube do Olhar de Cinema durante o festival.