Mostra Foco: Entrevista com Kamal Aljafari

Kamal Aljafari: Varandas inacabadas no mar
por Nathalie Handal

Entrevista com Kamal Aljafari conduzida pela poeta e escritora franco-americana Nathalie Handal por ocasião do lançamento do longa-metragem Recordação, originalmente publicada em fevereiro de 2016 na revista Guernica. Agradecemos a Nathalie Handal por autorizar esta tradução. Tradução de Paulo Scarpa.
Original em inglês disponível em: https://www.guernicamag.com/kamal-aljafari-filming-ghosts-and-unfinished-balconies/.

Nathalie Handal: A alegórica cena de abertura em seu filme Recordação, estabelece o ritmo do filme. O súbito desaparecimento de pessoas em movimento – caminhando, dançando, correndo – culminando na foto de uma jovem com um lenço branco caminhado em direção ao mar antes dela desaparecer. Seria o desaparecimento um ato de ressurgimento?

Kamal Aljafari: Eu criei um trailer em que eu queria mostrar como esse filme foi feito. Depois da estreia do filme no Festival del Locarno, pensei que deveria começar o filme dessa forma. Tirando os atores e dando um zoom nas figuras posicionadas ao fundo, esses fantasmas que nunca saíram de lá. Pois imagine, estava assistindo a esses filmes quando, em um deles, vejo meu tio caminhando no fundo na cena. Eu só via meu tio de vez em quando, pois ele estava internado em um hospital psiquiátrico. Vê-lo ali criou um momento de ressurgimento. Ao mesmo tempo simbólico e natural, pois eu apenas o conhecia como um fantasma rejeitado. E ele aparece ao acaso em um filme israelense. Nunca saberemos quem é a jovem que desaparece.

NH: A realidade se encontra entre o visível e o invisível?

KA: Quanto à realidade, não sei. Este filme mostra como não há diferença entre realidade, ficção e fantasia. O que encontrei neste material é incrível. Ter encontrado todos esses personagens que nunca existiram, mas sempre estiveram lá. É a magia do cinema. Ele está além do nosso controle, ele captura tudo. Os vestígios estão por toda a parte, os vestígios da cidade, das pessoas que habitavam a cidade, tal como o rosto que encontrei estampado no canto de uma janela. No filme, o personagem principal caminha pela cidade e vê o rosto gravado na pedra, um primeiro sinal de vida. Aos poucos, ele descobre outros sinais e coleta tudo o que encontra. Há um arqueólogo dentro de mim.

NH: As caminhadas são singulares e coletivas e eventualmente se entrelaçam. Você poderia desenvolver essa ideia?

KA: Nos filmes israelenses, os personagens caminham por uma rua que leva a outra rua não exatamente adjacente. Esses cineastas só se importavam com as texturas da cidade velha, com a natureza fotogênica de Jaffa. Para quem vem e conhece este lugar, esses filmes não fazem sentido. Era importante para mim fazer o personagem do meu filme caminhar e dar sentido a tudo isso: projetar o lugar tal como ele é, com ruas que levam a outras ruas tais como elas são. Como fazer um filme com tudo isso? Onde começar? Por onde caminhar? O personagem em Recollection chega do mar. O sonho de qualquer palestino é chegar à cidade pelo mar e não do aeroporto, chegar sem fronteiras. Ele chega ao porto e sobe as escadarias até um bairro, e de lá parte para Ajami e depois para al-Manshiyya (a parte em preto e branco). Ele consegue ir para todos os lugares que já não pode mais. Seu andar é o de seu avô, de sua mãe, de seu tio. A caminhada de todos os fantasmas que ele encontra.

NH: É por isso que você usa eu e ele (referindo-se ao personagem principal) de forma intercambiável? Seria um reflexo de como o pessoal é coletivo?

KA: O personagem que filma é muitas pessoas. O “eu” é menos sujeito do que veículo, ele não se desenvolve, ele simplesmente se move, geralmente a pé, de forma sorrateira, frequentemente retornando ao seu ponto de partida. O “eu” são todos os fantasmas do filme.

NH: Ao manter o mistério no filme, o que você está comunicando sobre o que foi removido?

KA: O personagem que filma é essencial para o ato de reivindicar. Para mim significa a reivindicação do território cinematográfico que nos foi tirado. Não podíamos fazer esses filmes porque nossa sociedade estava completamente destruída. O que foi deixado para trás em Jaffa depois de 1948 foi uma minoria insulada, deprimida e pobre. Minha família perdeu todas as suas propriedades: foram destruídas, bombardeadas ou tomadas. Todos nós tivemos que recomeçar do zero. Meu filme tenta corrigir isso de alguma forma – o que chamo de justiça cinematográfica – ao me dar a oportunidade de caminhar e fazer um filme. O personagem é um fotógrafo. Ele está filmando de uma maneira diferente dos israelenses, pois estes não queriam ver Jaffa. A cidade não tinha nenhum sentido para eles e os filmes que realizaram são a prova disso. Eles apenas queriam usar Jaffa para inventar uma narrativa histórica.

A posição do meu personagem é diferente. Ele conhece cada esquina. Cada pedra tem um significado para ele. Ele se sentou ali, seu avô se sentou ali. Quando ele toca a pedra com sua câmera, é uma experiencia emocionante para ele. Não é uma escolha estilística. Sua câmera expressa os sentimentos que ele carrega. Ele sente uma grande responsabilidade. Ele quer filmar tudo incessantemente.

NH: Por que você filmou tantos closes das paredes?

KA: As paredes testemunharam tudo. Elas foram deixadas para trás, semidestruídas. E mesmo que todos tivessem partido e a cidade estivesse vazia, as pessoas ainda estariam gravadas nas paredes.

NH: Você é um explorador. A sua grande busca explorativa, até o presente, é a memória. O que descobriu ao refletir sobre a memória?

KA: Não consigo me separar do fato de que moro no exterior. Quando volto para Jaffa, retorno para meu local de origem em busca das minhas memórias, da minha família e das pessoas que amo. Procuro a cidade que não me pertence mais, mas sei que é minha. É uma sensação bastante esquizofrênica. É possível que mesmo que não tivesse ido morar no exterior ainda teria feito os mesmos filmes, pois me lembro de sempre carregar comigo as lembranças da cidade. Na minha infância, voltando da escola para a casa de minha família, vi um homem israelense apagando o nome da família palestina proprietária da casa. Isso ficou em minha mente. Cada vez que passo por esta rua, ainda vejo vestígios do nome.

Quando trabalho em um filme, não tenho uma estratégia prévia, é algo que sinto no momento e sigo adiante. Em Recollection, o personagem guarda infinitas memórias. Ele é todas as pessoas que encontramos. E Jaffa é infinita. O tanto de memória e história que lá se encontra existe para além de qualquer ocupação. Ele é a própria memória filmando.

NH: Recordação é uma experiência emocional tanto quanto visual e sonora. Havia uma faceta mais importante para você capturar? Robert Bresson disse uma vez que em seu filme Um Condenado à Morte que Escapou “a liberdade é apresentada pelos sons da vida lá fora”. Como a liberdade é apresentada em Recordação?

KA: A vida do lado de dentro. O som do oceano. Durante a gravação, nós usamos microfones especiais que conseguem capturar o som dentro da parede. O eco que você ouve do lado de fora, mas gravado por dentro da parede. Também colocamos microfones na água e no porto, para ouvir o som ali. O som interno que normalmente não ouvimos. Era importante para mim ouvir o som das paredes, a vida enterrada, no fundo do mar. O governo israelense e o município de Tel Aviv destruíram Jaffa. Eles destruíram as casas e as lançaram no mar. Mas todos os anos, no inverno, quando o mar sobe, ele devolve destroços dessas casas para a costa. A municipalidade de Tel Aviv os recolhe e os joga de volta, mas as ruínas voltam. Todos os anos o mar as traz de volta.

Gravamos à noite porque é quando os lugares se libertam do presente e de seus ocupantes. Há uma loja, que hoje pertence a um israelense, mas ainda carrega o nome de seu dono, um palestino. À noite, eu passava e via seu nome. Meu interessa estava em capturar o som da loja quando ela estava sozinha, ao voltar a ser ela mesma.

O mesmo ocorre ao gravar, ouvir, perceber o som das paredes e os sons dentro das paredes. E, claro, o oceano que é o símbolo do desejo. Ele volta. Incontrolável. Ele se apodera de tudo.

NH: Ruído, música, silêncio – por que você incluiu aquele breve diálogo que termina com uma comovente pergunta: “Ela mora aqui?” em um filme sem diálogo?

KA: As gravações ocorriam principalmente à noite, mas um dia andamos pela cidade e gravamos pessoas. Estávamos em Ajami e havia uma garota, por volta de oito anos de idade, pendurando roupa. Ela estava curiosa. Olhava para nós enquanto gravávamos sons. Ela começou a brincar com seu balão e a chutá-lo em nossa direção, tentando brincar com a gente, tentando se comunicar. Demos o microfone a ela e ela ficou muito feliz. Eu perguntei: “Qual é o seu nome?” Ela disse: “Yara”. Eu perguntei a ela: “Onde você mora?” Ela me disse: “Nahal Oz”. Fiquei surpreso e perguntei se era em Tel Aviv. Ela respondeu que não. Eu perguntei: “Em Jaffa?” Ela não respondeu. Então perguntei a ela o que ela estava fazendo aqui. E ela disse que estava visitando sua avó. Perguntei o nome de sua avó. Ela respondeu: “Sumaia”. Eu disse: “Ela mora aqui?” E ela não respondeu.

NH: Seus filmes aquiescem a quietude. O que é quietude para você?

KA: É o sonho no qual todos estamos. No filme, ele caminha passo a passo. Aproveitando cada momento naquele espaço porque é impossível que ele esteja ali. Como em um sonho, você visita lugares diferentes, muda de um lugar para outro. Também é assim com a memória. Diferentes lugares coexistem. Diferentes tempos coexistem.

NH: No filme Poesia (Shi), o diretor sul-coreano Chang-dong Lee mergulha nas dimensões da memória e na importância de ver o mundo em profundidade. Você poderia comentar sobre o que “ver em profundidade” significa para você?

KA: É um ato de passar o tempo – filmar um lugar por tanto tempo até conseguir vê-lo. Novamente, acho que está relacionado à memória. Você não consegue se lembrar rapidamente. Você precisa sentar e olhar. E é isso que minha linguagem de câmera está fazendo. Ela está contemplando. Para os gregos antigos a poesia era a mãe de todas as musas. Eles acreditavam que a memória estava mais intimamente associada à prática da poesia. A linguagem do filme é a única linguagem possível, a do permanecer. Quando você escreve um poema, ele não é roteirizado. Este filme foi feito da mesma forma.

NH: Você trabalha com não-atores. Você acredita que dessa forma consegue estar mais perto da verdade?

KA: Não creio que foi por escolha. Fiquei interessado no que encontrei na casa da minha família. O jeito que minha tia arrumava a cama: tão elegante, tão original. De alguma forma expressava tudo sobre ela, sobre quem ela é. Nenhum ator consegue recriar ela arrumando a cama do jeito que ela fazia. Para mim, isso é cinema, capturar essa poesia. Eu não sou contra atores. Mas eu estava interessado na relação de dar e receber que encontrei em meus personagens. E só era possível encontrar essa relação com pessoas e lugares que carregam um grande significado para mim, que eu conheço, por quem tenho afeição. Não é apenas atuação; é sobre ser você mesmo. Tal como aquela flor ou aquela pedra que ninguém notou.

NH: Que instruções, se houver, você dá a seus não-atores ou personagens?

KA: As duas regras que sigo são: nunca pedir que façam algo que normalmente não fazem e nunca lhes dizer como fazer nada. Meu interesse estava em capturar sentimentos e não em dirigir personagens.

NH: Quão desafiador foi trabalhar com parentes?

KA: Às vezes é difícil, porém também surpreendente pois existe ali algo tão familiar, ainda que novo, ao filmá-los, ao capturá-los para a câmera, que vale a pena. Agora, quando vejo os filmes, vejo álbuns de família.

NH: O que lhe vem à mente quando você ouve: Intifada 1987?

KA: Eu estava no ensino médio na época, na escola Terra Santa em Jaffa. Ver as imagens na televisão com minha família à noite – palestinos nas ruas, soldados quebrando os braços de jovens – me tornou cada vez mais político. Contra a vontade de meus pais, comecei a ler o jornal do partido comunista. Meu pai pediu ao velho senhor do bairro, Abu Nijem (Nijm significa estrela em árabe, o nome de seu filho mais velho), que me trazia o jornal, para não trazer mais. Ele até pagou a assinatura anual que pedi. Ele não queria que eu me envolvesse com política. De certa forma, meu pai estava certo. Ele me disse: “Quando eu tinha sua idade, caminhava dez quilômetros com meus amigos para assistir à única televisão em Lydd para ouvir o Nasser [Gamal Abdel Nasser]. Mas no fim, não ganhamos nada com isso”. Claro, quando jovem, me sentia forte. Não queria saber dessas histórias. Eu ia para Nazaré participar das manifestações e voltava às duas da manhã e meu pai não abria a porta para mim.

NH: Como a cidade de Jaffa de hoje difere da Jaffa de sua infância?

KA: De certa forma está pior. Existiam resíduos quando eu cresci. Existiam algumas ruínas. Mas nos últimos quinze anos, com o projeto de gentrificação em andamento em Jaffa, mais coisas desapareceram. Eles se apropriam das antigas casas palestinas, as renovam, mudam sua identidade. Às vezes é pior mudar a identidade a ponto de não mais reconhecê-la do que destruir a casa. O processo de gentrificação, que neste caso carrega um sentido político, faz com que você não se sinta em casa na sua casa. Se eu caminhar hoje pelas ruas onde meus avós viveram a maior parte de suas vidas, me sinto perdido e deslocado. Esse apagamento é doloroso. Mas claro, nunca me esqueço que é daqui que venho.

NH: O que ainda permanece intacto para você?

KA: Há uma sensação. Está no ar, no cheiro do lugar. A brisa que vem do oceano, ela de alguma forma guarda essas infinitas memórias ao qual me refiro. É o cheiro das pessoas que não estão mais lá.

NH: Como foi crescer como palestino em Israel? Sendo excluído – metaforicamente, fisicamente, emocionalmente – do lugar de onde você veio?

KA: O mais doloroso é que você se sente como um imigrante em seu próprio país. Essa é a sensação que tinha. Por um lado, eu sabia – e ainda sei – que sou de lá, mas por outro lado, não me sentia confortável para ser eu mesmo. Precisava esconder minha identidade. Tinha que falar um idioma que não era o meu. Eu tinha que falar hebraico. E quando criança eu sempre ficava preocupado quando perguntavam meu nome. Meu nome revelaria minha identidade. Sua existência está sendo questionada a todo instante. Claro, quando você cresce você resiste a tudo isso e diz seu nome sem medo. Mas, quando criança, você vai à piscina e é obrigado a fingir que é outra pessoa para se proteger e ser igual às outras crianças. A sociedade palestina foi completamente desarraigada e aqueles de nós que ficaram foram isolados, deixados sozinhos, e tivemos que lidar com a situação e sobreviver da maneira que fosse possível. Quando uma criança esconde sua identidade é um ato de sobrevivência, pois ela se sente discriminada. Quando fui para o exterior, meu estado de espírito nunca mudou. Sempre me senti como um imigrante.

NH: Identidade é um assunto que constantemente vem à tona. Seria identidade uma ilusão, uma fronteira?

KA: Somos muitas coisas. No caso da identidade palestina, eu a considero diversa e rica, e de certa forma não nacionalista apesar de tudo. Há algo impressionante nisso tudo, pois é uma nação que está sob ocupação, você imagina que seriam mais nacionalistas, mas eles não são. Na verdade, os ocupantes que são nacionalistas. Eu sinto que a identidade palestina não tem fronteiras.

NH: Partidas e chegadas de e para Jaffa hoje em dia – como são essas viagens para você?

KA: Eu carrego um passaporte israelense, mas sempre sinto que vão barrar minha entrada. É muito estranho que eu seja de lá. Sempre fico preocupado quando passo pela alfândega. Nunca sei se vou entrar ou não. Essa é a sensação que tenho toda vez. É o terror mental que todos vivemos geração após geração.

Tenho agora a imagem de abrir a porta da casa dos meus avós, que está sempre destrancada. Há algo de bonito nessa sensação, de chegar e simplesmente abrir a porta. Da última vez que estive lá, meu desejo era permanecer.

NH: E o tempo? Palestinos parecem viver fora do tempo. O que você acha das palavras de Juan Goytisolo, no romance Exiled From Almost Everywhere, quando ele escreve: “Tudo segue seu curso, inclusive o próprio tempo”.

KA: No que se refere à memória, o tempo está além de mim. E foi assim que o filme foi feito, em relação ao tempo. Estar presente em todos os tempos. Dito isso, atualmente, os palestinos continuam sendo forasteiros. Talvez agora seja mais confortável ser palestino em alguns lugares. Mas vindo dessa causa não resolvida, que provavelmente não será resolvida nos próximos anos, nós continuamos sendo forasteiros. Como cineasta, estou no limite do tempo. Estar no limite é a posição correta de se estar em relação a esses personagens. E ponto de partida para observar o mundo.

NH: Você mora na Alemanha. Há um fluxo de refugiados, entre eles palestinos vindo do campo de refugiados de Yarmouk, na Síria. Muitos fazem aquela difícil travessia pelo mar. Sua família ficou em Jaffa porque o mar estava turbulento e os trouxe de volta. Qual é a sua experiência com esses refugiados recentes?

KA: Eu conheci muitos deles e ouvi suas histórias de fuga de Yarmouk. De certa forma, quando moravam em Yarmouk eles copiaram o que perderam na Palestina e, nesse sentido, viveram “fora do tempo”. Porém, mais uma vez, esse espaço reproduzido foi completamente destruído. Muitos perderam amigos, parentes morreram no mar. Eles carregam essa múltipla sensação de estarem despossuídos. Essa experiência os tornou mais palestinos do que antes. É interessante observar quão forte e preservada é essa identidade palestina, apesar de tudo. Eles fisicamente viveram a experiência de seus avós que foram obrigados a fugir em 1948.

Há um bairro em Berlim – Neukölln – onde os refugiados vão comer pois há muitos restaurantes árabes. A chegada deste grande número de refugiados está se tornando um contra-ataque contra os hipsters que estavam indo na região. Eu gosto disso. Eles enchem o lugar com vida. E, obviamente, fico feliz em ouvir a língua árabe e caminhar entre eles.

NH: Você estudou teatro e desenvolveu sua tese sobre a peça de Lorca, Bodas de Sangue. Lorca foi uma inspiração para você como cineasta?

KA: Cheguei ao departamento de teatro por acaso. Eu estava na Universidade Hebraica e os israelenses que conheci neste departamento eram agradáveis, diferente dos israelenses que estudavam história, que era meu curso originalmente. No teatro, o ambiente era mais livre, menos tenso. Eu conheci Lorca e seu mundo, suas metáforas eram também as minhas. Em “Romance Sonâmbulo”, ele escreveu “mas agora não sou eu, nem a minha casa é a minha casa. Deixe-me subir, pelo menos, até as sacadas altas.” Suas sacadas altas me lembraram do meu local de origem, um lugar com sacadas inacabadas. As emoções e metáforas de Lorca falaram comigo. Eu sentia que Lorca veio de onde eu venho. E descobri Bodas de Sangue, uma peça de teatro incrível, e depois a adaptação cinematográfica da peça por Carlos Saura, que me emocionou.

O dançarino de flamenco Antonio Gades, ao se maquiar, fala para a câmera sobre sua experiência de morar em Paris em um apartamento que depois descobriu ser o mesmo que seu mestre espanhol havia morado anos antes. Os sentimentos misteriosos que o filme evoca falaram comigo. Lembro-me bem desse momento, pois foi o ano em que vi o filme Crônica de um desaparecimento (1996), do cineasta palestino Elia Suleiman, um marco do cinema mundial.

NH: Você também morou nos Estados Unidos. Foi bolsista Benjamin White Whitney no Radcliffe Institute and Film Study Center da Harvard University em 2009-2010, e lecionou cinema na The New School em Nova York em 2010, antes de retornar à Alemanha para se tornar professor associado e diretor de programação na German Film And Television Academy em Berlim, 2011-2013. Poderia falar sobre sua experiência em Nova York?

KA: Nova York foi o único lugar no qual morei que senti que poderia ficar. Nunca senti isso em nenhum outro local. Sempre fico com a sensação de que preciso ir para outro lugar. Conviver com pessoas que, tal como eu, vieram de todos os cantos do mundo, com diferentes sotaques, me faz sentir confortável. E é uma cidade que você sente que já esteve lá antes, mesmo se não for o caso, por causa do cinema. Se esse sentimento é verdadeiro ou uma ilusão, eu não sei. Mas é assim que me sinto em Nova York.

NH: Sendo exilado, você está enraizado na ausência de lugar ou carrega o lugar com você?

KA: Eu carrego o lugar comigo. Mas é paradoxal, pois há também uma certa ausência nisso. Talvez seja minha autobiografia, os lugares de onde vim – o segundo andar inacabado da casa dos meus pais, a casa dos meus avós que antes pertencia a armênios palestinos, onde minha família foi obrigada a morar após perderem sua casa no bairro de al-Manshiyya. Há uma ausência constante até no lugar que carrego comigo. Uma vez, quando eu era criança, pedi a meu pai que me levasse para a casa onde ele nasceu. Caminhamos por um bairro vazio, não havia mais nada onde sua casa ficava.

NH: Dessa forma, seria memória o lar? Ou o cinema virou lar através da busca pelo que se perdeu?

KA: Cada vez mais o cinema. Percebo que só posso habitar esses lugares nos filmes que estou fazendo.

NH: Ao final de Recordação, uma certa liberdade é projetada, imagens de pessoas. Poderia falar sobre essa cena?

KA: Eu amo essa cena porque ela é muito esperançosa. Esses fantasmas estão caminhando juntos, de mãos dadas. Eles estão cantando. É uma canção pela qual eles se declaram. Eles decidem caminhar e cantar e falar para o mundo. É uma marcha final no qual esses fantasmas não são mais fantasmas.

Os curtas-metragens de Kamal Aljafari integram a mostra Foco deste ano e já podem ser vistos no canal do YouTube do festival. Confira aqui: